Sínodos Vale do Itajaí e Norte Catarinense - 21 de dezembro de 2014
Novembro 2014

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Edição - Setembro 2008

Tema do Mês

TERCEIRA IDADE - O lugar do idoso é na família?

Na sociedade brasileira e no planejamento político social dos órgãos governamentais é preconizada a idéia de que o lugar do idoso é na família. É necessário portanto analisar a situação da família hoje em função das transformações sociais. A família inicialmente formava uma unidade de produção para garantir a sobrevivência dos seus membros. A unidade familiar ampla exercia na agricultura a função de uma cooperação de produção dos alimentos.

Hoje a base da família é o afeto e o amor. A vivência deste amor numa comunhão íntima e privativa é hoje a função predominante da família. Mas de modo geral isso se relaciona ao pequeno núcleo familiar. Ela reduziu-se ao núcleo familiar de pai, mãe e um ou dois filhos. Também se perdeu espaço físico para morar, com apartamentos entre 80 e 100 m², suficientes para abrigar apenas o pequeno núcleo familiar. Com isso, a família perdeu diversas funções que exercia necessariamente para o sustento e proteção dos membros: uma grande parte dos serviços de saúde, de educação, de produção e de alimentação.

A perda destas funções originais da família abre justamente o novo espaço para vivência do afeto numa espécie de privatização do amor. Pela perda de suas funções há necessidade de optar pela terceirização das tarefas originais da família: a educação realiza-se sempre mais fora da casa em ambiente preparado e por profissionais especializados. A responsabilidade pela saúde e pelos serviços assistenciais são confiados mediante pagamento a quem foi preparado para este serviço.

Nova velhice – Essa transformação da família tem seus reflexos sobre a vida do idoso, tanto em relação a organização de sua vida funcional como em relação ao espaço físico onde ele vive.

Houve um crescimento considerável da expectativa de vida através dos séculos. No período greco-romano esta expectativa era de 18 a 25 anos, no século 17 ela cresceu apenas um pouco para 28 a 30 anos. No início do século 20 a França já apresentava uma expectativa média de 52 anos, enquanto o Brasil situava-se em 40 anos. Os índios brasileiros, há dois mil anos, chegavam a uma vida média de 25 anos. Hoje a expectativa de vida chega na Região Sul é 63,75 anos. A ONU considera o período de 1975 a 2025 como era do envelhecimento, dado ao crescimento marcante da fração geriátrica em relação à população global.

Este crescimento tem diversas conseqüências. Este novo desenvolvimento registra a presença de até quatro gerações em uma família: Uma geração dos idosos acima de 65 anos, a próxima geração de seus filhos entre 50 e 65 anos, os pais jovens de 20 a 40 anos e, finalmente, os filhos.

Está crescendo o número de pessoas acima de 60 anos que procuram um lugar para seus pais de 80 anos. A estrutura familiar não tem condições de enfrentar esta condição sem ajuda de instituições, pois não existe espaço físico na casa da família, nem há conhecimentos técnicos de assistência gerontológica da parte dos membros da família.
A ampliação da cobertura que a rede social pública dá, cria para o idoso uma situação de maior independência econômica em relação aos seus filhos. Antes da seguridade social previdenciária o idoso era obrigado a viver integrado no ambiente familiar. A pensão vitalícia e a aposentadoria rural mudaram a plena dependência do idoso, permitindo a ele maior flexibilidade na estruturação própria das perspectivas de vida. A opção por uma vivência em comunhão com outros idosos no ancianato foi facilitada, já que o idoso não se considera mais tanto um peso no bolso dos filhos.

Registra-se também um fenômeno desta autonomia econômica: O idoso recebe uma ajuda sempre menor dos filhos e netos e, especialmente no Brasil, passa a subvencionar seus filhos e netos em proporção maior. É crescente o número de famílias brasileiras que dependem quase exclusivamente da renda do seu integrante idoso e aposentado.

Perda das funções – Na atual sociedade, costumes, conhecimentos profissionais perderam valor, em função das mudanças rápidas. Vive-se de valores descartáveis, não apenas em relação ao consumo, mas também em relação a valores, habilidades e educação. Este fenômeno – e o conseqüente nivelamento da posição das gerações, agora com direitos iguais – trouxe para a velhice uma reativação de seus valores provenientes da soma de sua experiência de vida.

Assim não se espera mais do idoso a mesma contribuição indispensável na formação dos valores atuais da sociedade, como antigamente. Não prevalece mais tanto a tradição de pai para filho. O idoso experimenta esta realidade como situação de conflito distanciando-se de suas antigas funções em família e sociedade. A relativa autonomia e a perda das funções trouxeram reflexos para a forma de morar do idoso. Ele prefere viver sozinho em sua grande maioria, chegando a 82%, segundo estatísticas.

Liberdade de escolha – A perda de funções e de espaço na família não leva o idoso necessariamente à solidão. O modelo do idoso como vítima da “desprivança” não coincide com a vontade do idoso de ser agente, ele mesmo, de seu bem estar. Uma vida em depressão considerada típica para o idoso (muitas vezes candidato ao asilo), não é uma situação fatalística incorrigível. O idoso, livre de compromissos profissionais e familiares, tem oportunidade agora para criar atividades culturais. O idoso está despertando para esta liberdade individualizada. Isto também se expressa na opção por sua moradia.

Outro aspecto revelado na pesquisa referente ao fenômeno da “desprivança” mostra que há tendências para a solidão e depressão naquelas pessoas idosas que não experimentam mais motivação para ativação plena, pois estão isolados em suas casas com falta de iniciativa devido a esta perda de função social. Este idoso isolado em sua casa ou em seu apartamento apresenta tendências de desconfiança generalizada, distancia-se da geração mais nova e desenvolve uma atitude de contestação permanente autoritária-legalista.

O gradativo distanciamento do idoso da família não é um fenômeno novo, conseqüência da industrialização. A estabilidade e a integração em famílias de mais gerações na era pré-industrial é idealizada. Pesquisas históricas comprovam que tais famílias grandes eram relativamente raras na Inglaterra pré-industrial e na França. Os indivíduos que chegavam à velhice ficaram surpreendentemente sós nesta fase da vida e na hora da morte. A integração aparente era forçada por fatores externos e por imposição de um controle social rígido através das tradições do grupo familiar.

A integração do idoso no ancianato como centro de convivência integral permite superar tal individualismo negativo, numa combinação de um ambiente individualizado mas inserido numa comunhão maior que estimula a integração social. Pois existem momentos em que o idoso gosta de estar sozinho e de ter “direito à preguiça”.

* Obreiro pastor da IECLB, especialista em Gerontologia Social pela Universidade de Barcelona (Espanha) e diretor da Instituição Bethesda, de Pirabeiraba (SC)

HANS BURGER *

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EDIÇÃO • Nov/2014

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